Me identifico demais com este poema de Alziro Zarour...
POEMA DO BREVE EXÍLIO
Quem foi que disse
que me conhece?
Certamente foi alguém que
também não se conhece.
Meu passo é lento
e, entretanto, eu sou veloz
como um pássaro na altura.
Meu olhar é restrito
e entretanto, eu vejo além
de planetas e de estrelas,
como um telescópio vivo.
Tenho saudade da Pátria Etérea,
porque lá é que eu sou Eu,
sem chumbo nos pés,
sem areia nos olhos.
Estou aqui de passagem,
e ninguém sabe.
Quem foi que disse
que me conhece?
Irmãos,
eu vos estranho,
e até me estranho entre vós.
Sabeis quem sou?
É claro que não sabeis.
Tão cedo não sabereis
nem, ao menos, quem sois vós.
Vossa terra é grosseira,
vosso corpo é um sudário.
Como é que podereis amar
o vosso amor sem materialidades?
Pois não conheceis o Amor,
sem calos nas mãos,
sem espinhas no rosto,
sem dentes cariados,
sem nervos nem ciúmes,
sem palavras de mau hálito.
Um dia,
conhecereis o Amor
sem moléstias venéreas.
Quem foi que disse
que me conhece?
Nem meu pai,
nem minha mãe,
nem meus irmãos,
nem parentes nem vizinhos,
nem psicólogos de esquina.
Talvez Alguém
de outros tempos,
de outras esferas,
do Espaço Infinito,
talvez.
Estou exilado entre vós,
até um dia,
que só Deus sabe.
Estou aqui de passagem,
por pouco tempo,
e ninguém sabe.
Quem foi que disse
que me conhece?
Nem eu me conheço mais,
na vossa terra grosseira,
eu que tenho 2.000 anos
já feitos e bem vividos.
Estas não são minhas faces,
não são estas minhas mãos,
meu corpo não é assim.
Eu me lembro
do que sou na realidade,
não é nada disto aqui
que vós todos abraçais.
Nem minha voz é a voz
que o microfone transmite,
em ondas curtas e médias.
Quem foi que disse
que me conhece?
E a quem poderei amar?
Vosso amor é algo torpe,
algo grotesco,
não é Amor.
Ah! Agora me lembro bem
que desci por pouco tempo,
exilado na missão
de vos dizer algo mais
da Pátria Etérea que habito.
Alegrai-vos, irmãos puros,
porque vos conduzirão
à Terra da Promissão,
que Deus fez só para os bons.
Mas, até lá, eu me estranho,
e não me conheço mais,
eu que tenho 2.000 anos
já feitos e bem vividos.
Quem foi que disse
que me conhece?
Certamente foi alguém
que também não se conhece.
A quem me lê e me ouve,
Um beijo.
ALANA.